Massa Lhama vai a feira para comprar verduras e
legumes para a sua casa. Acabara de tomar café da manhã. Enquanto aguardava sua
mulher terminar a lista de compras resolveu ir ao banheiro para eliminar um
pouco de gases causados pelos bolinhos de bacalhau ingeridos durante o café da
manhã. A feira ficava a exatas sete quadras da sua casa, sendo assim, resolvera
ir a pé, ato que segundo Lhama lhe proporcionava melhorias físicas
imensuráveis.
A lista de compras ficou pronta e Lhama saiu em
direção à feira. Depois de percorrer uma quadra inteira, Lhama encontrou um bar
aberto, resolveu entrar e experimentar um gole da cachaça que havia conhecido
por intermédio do seu amigo Dôuh-Dôuh, que além de
mestre julgava-se um conhecedor de cachaças.
No bar acabou pedindo, para acompanhar a cachaça, uma
porção de bolinhos de bacalhau e como conseqüência, mais gases... desta vez,
incomodando a caixa do boteco que estava a alguns metros dali. Lhama, então sem
graça, pagou a conta e seguiu novamente em direção à feira.
Após percorrer outra quadra inteira, resolveu entrar
no supermercado Pão de Açúcar, que ficava a menos de 10 metros dali, para
conferir os preços dos vinhos que pretendia comprar para aquela noite. Lhama ia
receber alguns amigos na sua casa naquela noite.
Chegando ao Pão de Açúcar, Lhama notou que estavam
servindo vinho para degustação e foi imediatamente participar. Experimentou
todos os vinhos que a promotora tinha para oferecer. Para espanto da moça, não
comprou nenhum.
Passou pelo café, comprou um bolinho de bacalhau e
saiu do supermercado novamente em direção à feira.
Na metade da próxima quadra mais gases eram
eliminados.
Já no final da terceira quadra, Lhama se deparou com
algumas bancas de camelôs, Eram ao todo cinco bancas, três delas vendiam
aparelhos eletrônicos, uma vendia livros e a quinta vendia alimentos, biscoitos
etc. Lhama foi até a quinta banca e pediu um bolinho de bacalhau e se deliciou
com o molho de pimenta oferecido pela vendedora coreana.
Enquanto ele comia um dos cinco bolinhos que havia
pedido, contava histórias da sua passagem pelo Timbé
e falava um pouco dos anos em que viveu com os monges timbetanos,
até o momento em que se tornara monge também.
Como ainda tinha que ir a feira e faltavam quatro
quadras, resolveu não esticar a conversa, mas mesmo assim deixara a vendedora
confusa, talvez pela quantidade de informações, talvez pelo cheiro oriundo de
cachaça, vinho, molho de pimenta, vinagrete e muito
bolinho de bacalhau.
Novamente a caminho da feira, na quarta quadra, Lhama
se depara com um amigo de infância. Se abraçam e
trocam poucas palavras quando seu amigo o convida para tomar café na padaria da
esquina. Lhama aceita porém acaba trocando o café na última ora por uma Bohemia e um bolinho de bacalhau. Seu Manoel, o dono da
padaria, garantia que aqueles eram os melhores bolinhos de bacalhau do bairro.
Para Lhama, um convite irresistível.
O papo continuava quando seu amigo começa a rir e
comenta com exaltação.
— Lhama, você está peidando?
— Eu! Imagina.
Mais uma vez a caminho da feira. Agora já na quinta
quadra.
Lhama caminhava rápido quando seu celular tocou.
Era
sua mulher preocupada com a demora.
Ele
saiu de às 09:00 e já haviam se passado mais de duas horas. Como explicar mais
de duas horas para andar menos de cinco quadras?
Ele
resolveu usar a estratégia do camaleão. Colocou a touca do casaco na cabeça
para não ser reconhecido e jurou não parar mais até chegar a
feira.
Imediatamente
foi perdoado por sua mulher.
Ele corria feito um avestruz,
com a touca na cabeça, fazendo aquelas duas quadras parecerem cada vez menores
e finalmente chegou a feira.
Lhama parava em quase todas as barracas e comprava
tudo que via pela frente, de azeitonas a nêsperas, de abobrinhas a pimentões,
leiteiras, amêndoas e por fim parou na barraca de pastel.
Devorava
pasteis de bacalhau, comia pimenta feito louco e bebia tanto caldo de cana que
o pasteleiro ficou impressionado.
ß Barraca de
pastel antes de Lhama chegar.
Barraca de pastel depois de Lhama chegar à
A
compressão gerada por ele naquele momento era tremenda. Conseguia sem muito
esforço, abrir espaço no balcão da barraca que vivia lotada.
Lhama
finalmente chegou em casa com as compras que se incumbira de fazer, sua mulher,
filhos e parentes muito contentes ao vê-lo abraçaram-no com benevolência. Seus
cachorros e demais animais de estimação pareciam sublimados com o simples ar da
graça e exalação de ternura que transcendia daquele ser.
Quando
tudo estava preparado para a festa, Lhama deitou-se no sofá da sala, num ato
digno de verdadeiro monge timbetano e dormiu
serenamente.
Colaboração: Amigos do Massa ©2004.